Contos

Uma história alternativa

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Nome sujo, dívidas, processos, tudo passava em sua mão. A profissão rendia um bom salário, porém trazia problemas de relacionamento na sociedade. Produzir atas e documentos não era algo prazeroso. Ficava o dia inteiro em frente à máquina de escrever registrando as manchas negras da população.

A cada dia que passava, Helmuth datilografava novos processos no Fórum de Blumenau. A cidade estava crescendo e 1958 terminava como um ano próspero. Faltavam apenas dois meses e então, o escrivão pegaria férias. Seriam 30 dias para esquecer-se dos problemas que atormentavam sua vida.

Limpar o nome de um grande empresário da cidade, no começo, parecia ser uma boa idéia. E por que não seria? Foi graças a isso que Helmuth pode comprar a sua casa, dar um espaço melhor para sua esposa e filha poderem viver.

Mas ele sabia que essa ajuda traria muitos problemas mais tarde. Ora, o empresário não era nenhum santo e muitos foram prejudicados com o sumiço de documentos no Fórum da cidade.

Helmuth andava preocupado. Passeava na Rua XV de Novembro desconfiado, encarando todas as pessoas. Tinha uma sensação de estar sendo perseguido. Passou a andar mais rápido e não perdia mais tempo no almoço – logo voltava ao trabalho.

Ele abriu o jornal do dia 4 de novembro de 1958 e soube da tentativa de assassinato do empresário que havia ajudado. Ficou ainda mais preocupado. Não leu a matéria até o fim, para não saber se os seus atos indevidos no Fórum tinham influenciado. Foi até as páginas de cultura, onde leu um anúncio que dizia:

VOCÊ VAI MORRER!

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VOCÊ VAI MORRER – DE TANTO RIR, dizia o anúncio da chegada de um circo ao município. Helmuth se sentiu aliviado e deu uma leve risada. Apesar da confusão, ele ainda estava preocupado.

Ao sair do trabalho, voltou a ter a sensação de estar sendo perseguido. Helmuth morava no bairro Bom Retiro e ia até o serviço a pé. Mesmo com as desconfianças, ele preferiu não contar para a família.

A manhã da quarta-feira, 5 de novembro de 1958, começou com trovoada. O escrivão acordou e viu que uma janela de sua casa estava aberta. Questionou o fato a esposa, que jurou ter fechado no dia anterior. Pegadas no terreno atrás da casa reforçavam a tese de invasão durante a noite.

A janela não estava quebrada e por isso, Helmuth decidiu não denunciar o caso à polícia. Chegou tarde ao trabalho e foi informado que alguns homens estavam a sua procura. Eles não quiseram se identificar no Fórum e prometeram voltar outro dia.

Sem saber quem eram os homens, Helmuth deu sinais de desespero. Decidiu almoçar no restaurante mais próximo do trabalho e foi acompanhado de colegas de trabalho. Amedrontado, olhava desconfiado para todas as pessoas que almoçavam no mesmo espaço.

No período da tarde, um funcionário das fábricas de Wilson McKrescky, empresário beneficiado por um ato de Helmuth, procurou o escrivão. Este informou que o chefe precisava falar urgentemente com ele, pois se tratava de uma situação delicadíssima.

Helmuth fez o sinal da cruz e aceitou o convite.

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Uma longa viagem de carro por ruas de barro no oeste da cidade e Helmuth chega à distribuidora de bebidas do empresário Wilson McKrescky. O local deveria trazer boas lembranças ao escrivão, mas o medo dos últimos dias inverteu os fatos.

Ao caminhar até a sala de Wilson, Helmuth lembrava o primeiro dia em que esteve no local. Fora convidado para uma queima de arquivo, e por dinheiro eliminou as provas de dívidas e processos do empresário. Os negócios na distribuidora cresceram após a ajuda vinda do Fórum e Wilson eliminou seus concorrentes – alguns com dinheiro, outros de outras formas.

Ao entrar na sala, Helmuth se deparou com um homem, de meia-idade, bem vestido, mas com a barba a fazer, chorando em uma mesa. Wilson se levantou e disse:

– Fui descoberto, Helmuth. É o fim!

– Calma Wilson. Podemos resolver isso – respondeu Helmuth.

– Sim, você vai resolver. Você irá dizer que eu nunca fiz nada, que eu sou um santo.

– Como assim – questionou Helmuth, já desesperado. Wilson olhou para a janela e disse:

– Aí vem. É contigo agora. Estarei escondido no banheiro.

Wilson deixou a sala vazia para Helmuth, que ouviu os passos de alguém se aproximando. Percebeu que era tarde demais para fugir. Seria hoje, o dia de pagar as contas? Estaria ali, a explicação para o medo que tomou conta da sua vida nos últimos dias?

Uma mulher abriu a porta do escritório segurando uma bolsa. Enfurecida, olhou para Helmuth, e perguntou:

– Cadê o canalha do meu marido? Ele acha que eu não sei quem é a vagabunda com quem ele anda saindo?

Alívio total. Wilson sempre teve a fama na cidade de ser canalha. Enfim, uma de suas aventuras noturnas tinha sido descoberta pela esposa. Com a situação sob controle, Helmuth ajudou o amigo empresário e conseguiu convencer a mulher que tudo não passava de um engano – e conseguiu.

Com a situação resolvida, o escrivão deixou o local e pegou o carro para ir para casa. Quando chegou à porta do carro, viu um bilhete colocado junto ao vidro, que dizia:

“Eu quero o meu dinheiro de volta, HELMUTH”

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O anúncio do jornal era coincidência, o chamado do empresário também. Mas a nova ameaça com certeza não era. Helmuth tinha consciência que prejudicou muita gente financeiramente ao ajudar Wilson. A queima de arquivo no Fórum, quem mais poderia estar envolvido, a não ser o escrivão?

Não conseguiu voltar ao trabalho. Pediu dispensa do dia e foi para casa ler os jornais de dois anos atrás, data do crime financeiro. Iniciou uma triagem de possíveis responsáveis pela ameaça no carro – chegou a três pessoas.

Na quinta-feira, 6 de novembro, não foi trabalhar. Ficou em casa, com medo. Escutou o seu cachorro latir o dia inteiro, como se alguém estivesse vigiando sua casa. Decidiu então, sair da residência e ir até a polícia contar a história.

– Delegado, este bilhete foi colocado no vidro do meu carro ontem à tarde – contou Helmuth.

– Sim, este bilhete é meu. Eu apostei na vitória do Palmeiras sobre o Olímpico, seguindo a sugestão sua, e me ferrei. Eu quero o meu dinheiro de volta – responde o delegado.

– Eu resolvo isso outra hora. Mas continuo com a sensação de estar sendo perseguido. Desde que me acusaram, em 1956, eu ando preocupado.

– Isso é paranóia da tua cabeça. As notícias dos jornais, que te apontavam como culpado, deixaram você assim. Mas a imprensa tem um pouco de razão. Ora, como um escrivão consegue comprar um CARRO?

O alívio por outra confusão se transformou em ameaça após o comentário do delegado. Helmuth jamais poderia comprar um carro e ele sabia que só pode fazer a compra graças à ajuda do empresário Wilson.

Voltou para casa o desespero aumentou. A mulher e a filha, de 5 anos, não estavam em casa. Passou a noite e as duas continuaram fora. Foram elas, seqüestradas? Ou seria mais uma coincidência transformada em paranóia pelo escrivão?

Na sexta-feira, Helmuth voltou ao serviço, e teve um péssimo encontro no caminho. A sua esposa estava na rua, conversando com Carlos Pfaffendorf, um dos empresários atingidos pelo golpe do amigo Wilson. Os dois já se conheciam, mas não conversavam há mais de cinco anos.

– Onde é que você passou a noite? – perguntou Helmuth.

– Na casa da minha mãe, ela estava doente – respondeu a esposa.

– Por que não me avisou? E o que você está fazendo com o Carlos? Ele desconfia de mim desde o caso de 1956.

– Foi não isso que ele me disse? – Quero você longe dele. Fique em casa, com a Clara.

– Você está ficando louco? O que há contigo? Está com medo de tudo, desconfia de todos. O que você andou fazendo para estar assim?

– Até tu vai desconfiar de mim, agora? Já chega! Eu vou para o trabalho!

Um dia sem trabalhar e o serviço ficou acumulado no Fórum. Havia muito que fazer no local. Percebendo que não daria conta do trabalho, Helmuth convenceu o seu chefe a trabalhar no sábado, para resolver as pendências. Aproveitaria o fato de estar sozinho no Fórum para investigar a vida dos seus possíveis inimigos.

Em casa, descobriu que a mulher e filha não dormiriam mais uma noite em casa. Desta vez, a esposa deixou um recado, informando que iria para a casa da mãe. Helmuth não acreditou e decidiu ir até a sogra.

Passava das 22h quando o escrivão chegou a uma pequena casa, próximo da Empresa Karsten. Bateu na porta e ninguém atendeu. Um vizinho ouviu o barulho e foi ver o que estava acontecendo.

– O senhor veio visitar a Dona Gertrudes? – perguntou o vizinho.

– Sim, a minha esposa também – respondeu Helmuth.

– O senhor é casado com a filha dela? Estranho, a Dona Gertrudes disse que visitaria o genro hoje, por isso não ficaria em casa.

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Ser perseguido por um estranho, ser jurado de morte, ficar paranóico, tudo bem. Mas ser traído era algo que Helmuth não aceitaria de forma alguma. Voltou para casa irritado, retirou do fundo do baú, um revólver calibre 38, pegou uma garrafa de cachaça e começou a se embebedar até não lembrar mais.

Uma forte dor de cabeça abriu a manha de sábado do escrivão. Na verdade, à tarde de sábado, já que Helmuth acordou às 13h. A mulher e a filha não estavam em casa.

O escândalo da queima de arquivo de 1956 estava na manchete da edição do dia. A polícia estava reabrindo o caso, por causa de novas denúncias. Era mais uma preocupação para o escrivão, que tinha que trabalhar naquela tarde.

No fórum, Helmuth tentava se concentrar no serviço, mas não conseguia. O amigo empresário se envolvendo em problemas, o escândalo de 56 de volta aos jornais, a esposa andando com o inimigo, o delegado pedindo ressarcimento pela aposta mal feita, tudo estava se voltando contra o escrivão.

Sozinho no trabalho escutou barulhos de tiro na rua. Foi ver o que era e descobriu que se tratava de um concurso de tiro realizado no Biergarten, em frente à prefeitura. Voltou ao serviço e ouviu uma pessoa berrando de dores na rua.

Saiu preocupado saber quem era, pois se tratava de uma voz feminina. Era uma atriz, do circo que assustou Helmuth no jornal, chegando à cidade com a trupe. Ela berrava em alto e bom som para todos que andavam na Rua XV de Novembro: “Você vai morrer – de tanto rir”.

Tudo o que ocorreu na vida de Helmuth eram sinais ou apenas coincidência? Na dúvida, o escrivão já planejava mudar de cidade, para fugir das pessoas que atormentavam sua vida. Ele não se sentia mais seguro na cidade.

Helmuth foi até a cozinha, nos fundos da prefeitura, preparar alguma coisa para comer. Meia hora depois, saiu do local e voltou ao trabalho. De volta ao serviço, pensou na possibilidade de queimar mais documentos, da esposa, de Carlos Pfaffendorf, de Wilson e de outras pessoas que estavam deixando o escrivão paranóico.

Colocou documentos dos nomes citados em uma vasilha e saiu à procura de álcool dentro da prefeitura. Foi então que Helmuth percebeu a fumaça de dentro do fórum. Outra sala já estava queimando.

Saiu então à procura de um extintor de incêndio. Mas era tarde demais. O fogo se alastrava por dentro do prédio da prefeitura e já atingia todo o fórum. Procurou então fugir do local, mas não encontrou nenhuma saída que estivesse livre das chamas.

Foi o maior incêndio que a cidade tinha visto. Metade do prédio da prefeitura, onde ficava o fórum, foi destruído pelas chamas. Um problema de curto-circuito foi apontado como causa do acidente. O local seria reconstruído apenas 42 anos depois, na comemoração dos 150 anos de Blumenau.

A esposa, o amigo Wilson, o delegado, o inimigo Carlos, todos eles sabiam que Helmuth trabalharia naquele sábado, 8 de novembro de 1958. Teria sido algum deles o responsável? O incêndio seria para queimar arquivos ou para queimar o responsável pelo sumiço de documentos? Ou seria tudo uma grande coincidência do destino, reforçado pela paranóia do escrivão? Helmuth morreu na dúvida.

FIM

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